O silêncio

Sem palavras.Começo o dia surtando, pego requisições técnicas onde não consta problema algum, apenas simples comentários que não nos levam a nada. Paro, olho novamente, releio, penso, coloco a mente para funcionar. A única coisa que sinto consigo sentir neste momento é um ódio mortal. Começo o dia brigando com a secretária, explicando que não basta simplesmente anotar recados, principalmente porque ele não é uma simples secretária.
O dia passa, vagarosamente, na realidade, praticamente na velocidade da luz. Um total desespero começa a tomar novamente minha mente, outro problema explicado, outra anomalia que na realidade não é um problema. É, de determinado ponto de vista, é um problema, mas um problema de operação, não podemos salvar o mundo e não temos porque fazê-lo. Mais discussões, mais explicações, nada leva a algum lugar, simplesmente ficamos vagando no vácuo.
Os pensamentos ficam cada vez mais intensos, dessa vez, vamos testar algo no sistema, provavelmente isso é possível de ser feito. Configuram algo, levam praticamente uma eternidade para fazê-lo, testam, testam novamente e mais uma vez. Brigo, xingo, esperneio, explico como são as regras da tal substituição, coisa que as mentes infelizes deveriam conhecer depois de tanto tempo lidando com o mesmo sistema. Ninguém, absolutamente ninguém sabe como configurar as tabelas de operações para que tal mágica aconteça. Brigo novamente, questiono sobre o momento em que seu pensamento se perdeu, nunca obtenho uma resposta que sirva para algo. Xingo novamente, questiono, questiono e questiono, obtenho respostas que apenas criam um vazio cada vez maior. Questiono se estou falando em outra língua, algo inteligível, me pergunto se estou realmente falando o bom e claro português ao qual todos neste país deveríamos compreender. Recebo a resposta de que estou realmente falando em português, o mais engraçado é que continua parecendo que não.
Vamos testar, aliás, antes me deixe verificar suas configurações, será que estão realmente corretas? Como estariam corretas se ninguém sabe como configurá-las? Aliás, de que ponto partiu se não tem a mínima noção do que faz? Como forjou determinadas configurações se nada entende sobre substituição? Fatos? Palavras? Não, ele diz que "ouviu falar" sobre determinadas coisas, pergunto porque não consultou outra tabela que foi configurada para a mesma finalidade? Pergunto se sabe ler, porque para qualquer usuário do nosso sistema, há uma opção bem clara que era exatamente o que ele precisava para concluir seus testes e comprovar que tudo que fora feito realmente funciona para o cliente que reclama sobre algo não funcionar. Na realidade, o cliente provavelmente não reclamou, ele simplesmente questionou e a secretária não soube como configurar para que o cliente pudesse tornar viável sua emissão de notas.
Se chegou até nós não tem mais porque a secretária testar, se já perdi o único colaborador que tenho para testes, não há porque a secretária continuar a testar algo incompreensível para sua pequena mente. Não basta ser pequeno em tamanho, tem que ser em tudo.
Leio para o meu colaborador uma das opções da tabela de operações, ele faz cara de interrogação. Pergunto novamente se estou falando em português, ele diz que sim, mas não havia compreendido o que havia acabado de dizer. Pergunto se quer que eu repita, ele diz novamente que sim, repito e continuo vendo uma cara de interrogação. Pergunto se realmente, se alguma em sua vida, ele havia atendido um cliente que precisava tratar substituição, ele responde que sim, mas o meu compreender não compreende nada, já que praticamente nada mudou em relação a "nova substituição". Testa, testa, testa e nada de funcionar. Pergunto se realmente é necessário testar mais de uma vez sem nem sequer mudar algo na tabela, já que acredito que sem mudanças em configurações, não há porque o sistema mudar a forma de calcular algo. Ele diz que realmente não mudará nada se não mudar a tabela, mas testou 5 vezes a mesma coisa com a mesma configuração. Pergunto por que? O que escuto como resposta? Nem sequer um bocejo...
Após eu mesmo testar, comprovamos que a tal "teoria dos catetos" realmente funciona em nosso sistema, o que quer dizer que realmente a secretária perdeu seu tempo e me fez perder o meu testando algo que não tinha o mínimo cabimento de ser testado pelo desenvolvimento. Imaginem se para tudo eu tiver que parar alguém do meu setor para testar? Para que produzir se podemos perder tempo testando o que ninguém sabe testar? Mentira, em teoria, pelo menos um deles sabem como utilizar determinada ferramenta com suas configurações corretas, mas não sei porque raios clientes importantes tem que ficar em mãos perigosas. Acho que a maioria ali dentro gosta de adrenalina e fortes emoções. Ou simplesmente gostam de vê-lo levando broncas porque fez cagada ou algo do gênero. Aliás, não sei de onde vem tanta merda de um corpo tão pequeno, literalmente falando.
Mas o dia infelizmente ainda não terminou, ainda dá tempo de encontrarmos algo totalmente ilógico, totalmente cretino que faria minha pessoa surtar no grau máximo da escala e com certeza me fazer querer matar. Claro que não poderia ser com qualquer cliente, tinha que ser com algum cliente que fosse um pouco mais complicado. E claro, diferente dos erros já soltos pelo desenvolvimento, esse tinha que ser especial, esse tinha que possuir a possibilidade, a frase ficou estranha, de podermos acabar com a movimentação de estoque. Claro, por que não? Por que não posso soltar uma correção com um erro que poderá causar um infarto no idiota do Yama? Por que não posso soltar uma cagada que será lembrada para o resto dos dias de todos na empresa? É bem mais marcante soltar uma cagada dessas, essa só perde para as cagadas que geram impostos errados ou que faz a nota fiscal sair fora dos padrões exigidos pela receita federal.
Fiquei realmente puto, perdi totalmente a noção do que era certo e errado, tive vontade de pegar um lápis e enfiar em sua garganta, dei algumas broncas, questionei sobre como é possível aquilo estar daquela maneira tão escrota. Nenhuma resposta. Acho que nem sequer uma lembrança passou pela mente infeliz do pobre rapaz. A parte mais engraçada, é que antes mesmo de abrir o código fonte para averiguar, eu já comentei que fora o elemento que havia causado tamanho absurdo. Não foi um tiro errado, foi certeiro, acertei seu lobo frontal com tamanha perfeição que se jogasse na mega sena, provavelmente estaria milionário. Fiquei tão perturbado que não conseguia nem mais falar sobre o negócio, depois de fazer comentários e questões de forma calma, o silêncio tomou minha alma. Todas minhas ideias, hipóteses e qualquer coisa que envolvesse a mente não estavam mais ali. Simplesmente ouvia apenas o som do vento, que não existia, dentro do escritório, só pensava em sair antes que o prédio desabasse, antes que minha mente tivesse um colapso total, antes que eu pudesse cometer algum ato impensado e repudiante, que pudesse causar danos cerebrais a minha pessoa.
Como se salva um drogado que nem ao menos tenta evitar as rodinhas com drogas? Como se salva um alcoolico que vive na porta do bar? Como salvar um diabético que não para de comer doces? Como salvar doentes de aids ou câncer terminal? Não há como salvar? É realmente impossível? Sim, é praticamente, na maioria dos casos que citei e hoje é assim que me sinto, tentando salvar o que não pode ser salvo...

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