Louca.

Mate-me.

Sinto o gelo da lâmina em meu pescoço, cada vez mais apertado, cada vez com mais certeza de que não sairei dessa. Em diversas outras ocasiões, você nunca tomou uma atitude como essa, talvez tenha sido a gota d'água, talvez seja seu último suspiro antes de atingir a loucura máxima. 

- No que está pensando - ela me pergunta.
- Vale realmente a pena perder muitos anos da sua vida? - respondi.
- Talvez, mesmo que eu perca alguns anos, ainda valerá a pena ter matado você - sua voz demonstra muita raiva.
- E o que está esperando? - questiono com um sorriso nos lábios.
- A hora certa! - ela responde com brutalidade e aperta ainda mais a faca contra meu pescoço.

Não, diferente do que muitos dizem, um filme não passou pela minha cabeça, apenas queria saber o desfecho de tudo isso. Até onde ela seria capaz de ir ou se ela conseguiria dar o próximo passo. E se não desse, o que eu faria com ela? Era engraçado, mas não estava conseguindo sentir raiva dela, talvez eu não fizesse nada caso essa situação se desfizesse.

Ouvimos alguém bater a porta, praticamente esmurrando-a, em seguida ouvimos uma voz grossa dizer: "Abra a porta, é a polícia!" - nesse momento ela vacila por alguns segundos. Poderia ter virado seu pulso e fazê-la soltar a faca, mas a emoção que sinto e a curiosidade não me permitem que o faça. Ainda com a lâmina em meu pescoço, pergunto o que ela fará agora.

- Não sei - ela responde com um certo remorso.
- Eu disse para parar de gritar que me mataria, algum vizinho com certeza chamou a polícia.
- Não perguntei nada à você - ela respondeu com certa frieza.
- Legal, agora, de duas uma: ou você vai presa, ou me mata e se suicida em seguida, o que prefere?
- Não quero morrer e não quero que morra - ela responde desmoronando em lágrimas.
- Bom, podemos fazer o seguinte, você prossegue com sua ideia de cortar minha garganta ou simplesmente larga essa faca e fingimos que nada aconteceu, pelo menos, perante a polícia.
- Não sei, não sei do que você é capaz, não sei se me baterá.
- Se até hoje não te agredi, não será uma ameaça como essa que me fará perder a razão - respondi com toda calma do mundo.
- Mas isso é muito grave, eu te ameacei com uma faca - ela começa a soluçar.
- Resolvemos isso mais tarde - respondi com frieza.

Ela então tira a faca de meu pescoço e desmorona em meu ombro, pego a faca, me levanto e vou até a cozinha para deixá-la em seu devido lugar. Calmamente me dirijo até a porta e abro para responder ao chamado do policial.

- Pois, não?
- Recebemos uma ligação sobre uma possível ameaça de morte.
- Sim, houve uma discussão entre minha namorada e eu, mas não foi nada grave, briguinha de casal.
- Mas e a ameaça de morte?
- O senhor sabe como é, algumas pessoas perder a noção do que estão dizendo em momentos calorosos.
- Tudo bem, podemos entrar para averiguar?
- Sinta-se em casa.

Eles entraram, olharam a sala e resolveram revistar o apartamento, no quarto começaram um interrogatório sem fim com ela. Já quase sem lágrimas, ela responde a todas as perguntas dos oficiais e em seguida eles voltam à sala e se despedem. Fecho a porta e suspiro em um enorme alívio. Ela vem para a sala e me olha como se não soubesse mais como se comportar. Olho em seus olhos e digo para se acalmar, para ficar tranquila que conversaremos mais tarde.

Saio para tomar um banho e me preparar para sair, precisava trabalhar, tinha algumas reuniões importantes que não poderia desmarcar. Ela entrou no banheiro e me certifiquei que estava sem uma faca ou uma arma nas mãos. Sentou-se na privada e começou a conversar, no início não conseguia ouvir nada, estava falando baixo demais para eu compreender qualquer coisa e pedi que falasse um pouco mais alto.

- Como nós ficamos? - ela perguntou com a voz trêmula.
- Ainda não sei, preciso pensar no que devo fazer. Infelizmente, neste momento, a única coisa que consigo pensar é na reunião que chegarei atrasado.
- Me perdoa - ela começa a chorar novamente.
- Agora não é hora pra isso, conversamos depois - falei com toda calma do mundo para não tornar seu choro ainda pior.
- Mas eu quero resolver isso agora.
- Não será possível, acho que não dá simplesmente para pedir desculpas e ficarmos numa boa. Acho que devemos conversar seriamente de noite, você pode esperar?
- Acho que sim - ela respondeu, quase engolindo seu choro.

Me vesti e saí rapidamente para a reunião, por sorte o trânsito estava excelente e cheguei apenas com dez minutos de atraso. Tudo decidido, desmarquei outros compromissos não tão importantes para voltar mais cedo pra casa. Peguei um táxi, deixando o carro no escritório por conta do rodízio e assim que cheguei em casa, chamei por ela, mas ela não me respondeu. Procurei-a em todos os cômodos e não a encontrei. Olhei em cima do criado mudo e encontrei apenas um bilhete escrito "Adeus!", olhei para as janelas e elas estavam fechadas, pensei: "Pelo menos a maldita não se matou".

7 comentários:

  1. "Pelo menos a maldita não se matou". rsrsrs
    Simplesmente adoro a categoria na sua estante.

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  2. "Pelo menos a maldita não se matou".rsrsrs
    Simplesmente adoro a categoria na sua estante.

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  3. Olha, nesses quase quatro anos de blog, essa foi a categoria que fez mais sucesso. =D

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  4. Esses extremos da vida, ela quis te matar, mas não teve coragem, talvez tenha querido se matar, mas também não teve coragem, acho que ela não tem coragem de viver um grande amor também! O medo é um dos sentimentos mais problemáticos do ser humano porque não é só um instinto de sobrevivência, mas uma desculpa para a covardia e para a incapacidade crônica que nos acomete nos dias de hoje. Pessoas extremas têm atitudes extremas mesmo quando desistem de tudo. Belo texto.

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  5. Foi uma ideia que tive depois de ouvir uma frase, que não consigo lembrar até agora qual foi. rs rs rs

    Valeu!

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  6. Ual! Ufa! Eu adoro esses textos com uma problemática alucinante embutido neles... HAHAHA

    Estava com saudade de ler algo assim que me prendesse, me fizesse perder o extinto natural da respiração e que me fizesse querer escrever um comentário em formato de texto para descrever tudo que eu sinto quando leio um texto seu. Vou do amor até o desespero do texto! HAHAHAHA

    Penso até hoje como a sua criatividade funciona, você é uma mistura muito bem misturada de assassinos em série, com um escritor que escreve quase que revirando o leitor de amores.

    Beijos!

    (E eu amei esse texto, afinal é frustante não ter conseguido entrar aqui nos últimos tempos)

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  7. Problemas comuns são frustrantes, sem graça e já convivemos com eles durante o dia-a-dia, eu gosto das coisas fora do comum. rs rs rs

    Gostaria de sentir essa sensação das pessoas que leem meus textos para ter uma ideia. =D

    Minha criatividade é um tanto quanto estranha e traidora muitas vezes. rs rs rs

    Beijão

    Então, até respondi seu tuíte para saber o que acontecia. rs rs rs

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