E se me perder?

Antes que termine o dia.

Despertei e não te vi ao meu lado, acredito que tenha ido trabalhar já que comentou que havia diversas coisas importantes para resolver. Caminhei até a cozinha para fazer um café, encontro o café pronto, quentinho, é você não saiu com tanta pressa. Peguei um gole, sentei para ler o jornal, dei uma passada rápida pelas notícias e não vejo nada de interessante. Termino meu café e saio para minha caminhada matinal mas acho que não seria necessário depois do esforço físico que fizemos na noite passada.

Cheguei ao parque, praticamente vazio, será um bom dia para caminhar, não terei distrações com as senhoras da terceira idade querendo conversar. Caminho uns cinco quilômetros e decido acelerar o passo para quase uma corrida, apenas mais dois. Sento um pouco para respirar, começo a ver pequenos flashes da nossa noite, das nossas conversas.

- Amor, você me ama?
- Mas é claro! Te amarei até meu último dia.
- É muito tempo, como pode ter certeza que me amará até lá.
- Porque nunca amei alguém assim. Nunca quis tanto ficar ao lado de alguém.
- É muito mesmo?
- Demais.

Acho engraçado a forma como vocês mulheres perguntam sobre nosso amor. Principalmente pela dúvida constante, não é algo irritante pra mim, como é para a maioria dos homens, mas a forma carinhosa e dengosa com que me pergunta transforma isso em um momento especial.

Cheguei a nossa padaria, onde tomamos café todos os domingos e até hoje não me acostumei a tomar café durante a semana sozinho. Você bem que podia pelo menos tomar café comigo antes de ir trabalhar, acho que uma ou duas vezes, por semana, não mataria seu chefe do coração. Ah, poderíamos combinar e levantar mais cedo para isso, conversarei sobre isso de noite.

Sentei em nossa mesa e pedi aquele pão que você insiste em dizer que irá me matar. Mas de que vale tanto esforço com caminhadas e academia se não puder abusar um pouquinho na vida? Você não está olhando, aproveitarei para comê-lo antes que esfrie. Começo a acompanhar o noticiário, nunca compreenderei porque deixam a tevê nestes noticiários da manhã. Percebo que todos olham atentamente para a tevê, houve um acidente ou algo parecido. Tento ouvir mas é quase impossível, me aproximo mais e percebo que houve um acidente, em uma das marginais da cidade, envolvendo um caminhão de combustível que chegou a explodir.

Ligo desesperado em seu celular e está fora de área. Fico mais desesperado, seu celular nunca ficou sem sinal. Volto correndo para casa e encontro seu celular na cômoda, sem bateria. Troco de roupa, pego as chaves da caminhonete e vou correndo para o local do acidente. É praticamente impossível chegar pelo trânsito que formou-se por conta do acidente. Tento pegar um atalho, também está parado. É incrível como essa cidade é um caos no dia a dia, com um acidente então.

Meu celular toca, é uma amiga sua me ligando, começo a suar frio, quase entro em desespero, encosto a caminhonete para atender... Ela me informa que você estava lá, no meio do acidente mas que está hospitalizada e passa bem. Corro para o hospital para ver como está. De repente o mundo começa a girar, girar, não consigo parar. Vou de encontro a um poste, mas até chegar ao meu destino sou jogado de um lado para o outro dentro da caminhonete, não sei como me soltei do cinto. Ao me chocar com o poste, meu corpo cai deitado com a cabeça no banco do motorista. Sinto algo quente escorrendo em meus olhos, passo os dedos para checar e é sangue. Minha visão começa a escurecer, sinto que apagarei...

Fui levado para o hospital onde você está, tem alguém em cima de mim pressionando meu peito, acho que o negócio é meio grave. Tento ver o que está acontecendo mas vejo apenas luzes, entro em uma sala fria e apago novamente. Sonho com você chorando ao meu lado, como se tivesse morrido, tento te consolar mas a minha atravessa seu ombro. Ouço uma voz que me diz para voltar, a princípio achei que fosse a sua, mas era um pouco mais suave, distante e profunda. Vejo uma luz e quando abro os olhos, vejo você sorrindo e tocando meu rosto. Pergunto se é um sonho, você sorri mais ainda, me abraça e me dá um beijo como se tivesse me conhecido naquele momento.
Escrito ao som de "Iridescent" do Linkin Park.

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