Um buraco no peito.


Olho para um lado e não vejo nada. Sinto como se o tempo tivesse parado, sinto meu corpo leve, com um leve calor no meio do peito.

Olho para o outro lado, vejo você, me olhando com seus olhos arregalados, cheio de lágrimas e você corre em câmera lenta na minha direção. Não compreendo o que está acontecendo.

Tento levantar o braço esquerdo e não consigo, será que estou tendo um colapso? Penso em minha família, nas lindas gêmeas, no meu querido sobrinho, em todos que me acompanham sempre, não sei porquê pensei nisso agora. Tento olhar pra frente e percebo que estou em um ângulo de visão meio estranho. Vejo um vulto segurando algo em minha frente, mas não o vejo de frente como se estivesse em pé, o vejo como se estivesse quase deitado.

De repente lembro de um domingo onde meu pai levou meus irmãos e eu para uma praça perto de casa, brincávamos num tanque de areia e sempre que íamos nessa praça eu desenterrava uma pá e um outro acessório de mexer em terra, que não consigo enxergar o que é. Voltando um pouco mais, um dia brincando nessa praça, encontrei essa pá e esse outro negócio que alguém esqueceu. Fiquei brincando o tempo todo com esses brinquedos e quando íamos embora, eu sempre enterrava no canto esquerdo, dependendo do ângulo em que você olhava o tanque, esses dois brinquedos. E no domingo seguinte eu desenterrava, brincava e enterrava novamente. Bem, dessa vez, cavei, cavei e cavei, e não encontrei meus dois brinquedos, não fiquei triste, apenas fiquei pensando em quem poderia tê-los encontrado.

Sinto uma dor no peito, tento colocar a mão direita nele para apertá-lo mas não consigo. O calor aumenta e sinto que meu peito está molhado com algo muito quente. Sinto que transpiro frio, sinto uma gota cair em meu olho esquerdo, pisco desesperadamente e percebo que está ficando escuro. Mas espera aí, como está ficando escuro se é meio-dia? Tento olhar para frente novamente e já não vejo mais o vulto que estava ali, percebo que o vulto agora corre para bem longe.

Olho para meu lado direito e continuo não vendo nada e no esquerdo você continua correndo em minha direção, mas parece estar tão distante que leva muito tempo para chegar. Quanto tempo se passou? O tempo parece tão longo agora, parece que você nunca chegará até mim. O que está acontecendo? A dor no peito aumenta, sinto minha respiração muito pesada, uma certa dificuldade para respirar, parece que roubaram todo oxigênio do planeta.

Quando menos espero sinto minha cabeça bater contra o chão, agora faz todo sentido, pelo menos em minha mente confusa. Sinto tudo em câmera lenta, meu corpo pulando levemente enquanto termina a queda, meus braços finalmente repousando ao lado de meu corpo. Mas como foi que eu caí? O que aconteceu? Agora consigo levar minha mão direita até meu peito, sinto o molhado quente em minha mão, levanto um pouco mais para ver o que é e está tudo vermelho. Finalmente você chegou até mim, seus olhos são apenas lágrimas, sua boca treme suavemente num esforço descomunal para tentar soltar algumas palavras.

Não consigo compreender exatamente o que houve, estou perdendo a consciência, cada vez mais escuro, cada vez menos luz. Olho para você, tento dizer algo e você me cala com sua mão direita. Sua mão esquerda está em meu peito tentando conter o vermelho que escorre levemente. Um buraco, sim, um buraco no meio do peito, causado pelo vulto que correu para fugir das sirenes distantes, que só consegui ouvir agora. Você diz "meu amor...", pausa, fica em silêncio por mais alguns segundos enquanto eu apago para todo o sempre.

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